Como viabilizar agroecossistemas resilientes?
Como preparar a agricultura para um clima cada vez mais instável? Este artigo mostra, de forma clara, como a diversidade de cultivos, os solos vivos e ricos em húmus e o fortalecimento natural das plantas podem tornar as propriedades rurais mais resistentes ao calor, à seca e a outros eventos extremos. Muitas dessas ideias já estavam presentes no Curso Agrícola ministrado por Rudolf Steiner em 1924 e hoje são investigadas em detalhe por pesquisas científicas. O texto também destaca a importância da cooperação entre agricultores, pesquisadores e toda a sociedade. Leia o artigo completo e conheça caminhos para construir uma agricultura mais resiliente.
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Junho de 2026 foi o mais quente já registrado na Europa Ocidental desde o início das medições meteorológicas e o segundo mais quente em escala mundial. Há muito tempo as mudanças climáticas se tornaram realidade e seus efeitos se fazem sentir de forma cada vez mais evidente — com consequências significativas e, em parte, devastadoras para a agricultura. Em todo o mundo, aumentam a frequência e a intensidade dos eventos meteorológicos extremos. Na Europa, ondas de calor com temperaturas acima de 40 °C frequentemente vêm acompanhadas de períodos prolongados de seca. Em outros lugares, chuvas intensas provocam inundações e deslizamentos de terra. Esses eventos extremos submetem solos, culturas agrícolas e animais de criação a forte pressão. Independentemente do continente ou do sistema de produção, todos os agricultores enfrentam hoje a mesma pergunta: como tornar as propriedades rurais mais resilientes aos riscos climáticos?
Observações práticas e um número crescente de estudos científicos mostram que abordagens da agroecologia, da agricultura orgânica e da agricultura biodinâmica podem contribuir para atenuar os impactos dessas mudanças (Altieri et al., 2015; Santoni et al., 2022; Rigolot & Quantin, 2022). O que essas abordagens têm em comum é que não colocam no centro a maximização dos rendimentos no curto prazo, mas sim a resiliência dos ecossistemas agrícolas. Entende-se por isso a capacidade de um agroecossistema manter seu funcionamento apesar de perturbações, incertezas e variações climáticas.
Sistemas agrícolas diversificados
Uma primeira chave para a resiliência está na diversificação dos sistemas agrícolas. A combinação de lavouras, criação de animais, fruticultura, horticultura e elementos próximos da natureza, como cercas-vivas, prados, lagoas ou bosques, favorece múltiplas interações entre os diferentes componentes da propriedade.
As árvores proporcionam sombra a culturas sensíveis e aos animais de criação e, ao mesmo tempo, reduzem o efeito ressecante do vento. Suas raízes exploram diferentes camadas do solo, melhorando assim a retenção de água e a estabilidade do terreno. Além disso, diferentes culturas agrícolas reagem de maneiras distintas aos extremos climáticos. Sua diversidade reduz o risco de perdas simultâneas de safra e distribui a produção por um período mais longo.
Essa abordagem corresponde tanto ao princípio biodinâmico do organismo agrícola quanto aos fundamentos da agrofloresta, da permacultura e da agricultura sintrópica, que buscam restaurar agroecossistemas complexos, autossustentáveis e resilientes (Jacobi et al., 2025).
Além de reduzir riscos, os sistemas diversificados geralmente produzem mais biomassa e favorecem o armazenamento de carbono no solo. O enriquecimento de matéria orgânica melhora gradualmente a estrutura do solo, aumenta sua capacidade de absorver e reter água e contribui para manter mais frescas as camadas superficiais. Todas essas são características decisivas para enfrentar melhor períodos de seca e ondas de calor.
Solos ricos em húmus armazenam água e preservam a fertilidade
Uma segunda chave para a resiliência está sob nossos pés: o húmus desempenha um papel central no funcionamento do solo — não apenas como reservatório de carbono, mas também como elemento estruturante.
Trabalhos recentes de Alessandro Piccolo mostram que compostos orgânicos humificados se ligam estreitamente às partículas minerais do solo e formam complexos organominerais especialmente estáveis (Piccolo & Drosos, 2025). Desse modo, formam-se agregados estáveis, que combatem a erosão, e uma estrutura porosa capaz de armazenar e distribuir a água com eficiência no solo. Um húmus fértil e biologicamente ativo se desenvolve sobretudo em solos vivos, com uma rica comunidade de microrganismos, pois a formação de húmus de alta qualidade é resultado de processos microbianos. Portanto, não se trata apenas de acumular carbono morto no solo — isso pode até ser prejudicial do ponto de vista agronômico.
O húmus atua, portanto, como um regulador natural da água. Ele melhora a infiltração das chuvas, reduz o escoamento superficial e aumenta a quantidade de água disponível para as plantas nos períodos secos. Ao mesmo tempo, contribui para a fertilidade física, química e biológica do solo. Melhora a disponibilidade de nutrientes, estimula o crescimento das raízes por meio de efeitos semelhantes aos dos hormônios e influencia positivamente a comunidade microbiana na zona radicular. Criam-se, assim, condições mais favoráveis ao crescimento vegetal — mesmo diante de condições climáticas cada vez mais difíceis.
Os preparados biodinâmicos, especialmente o esterco de chifre (500 e 500P) e os preparados de composto (502 a 507), contribuem para estimular a atividade microbiana no solo e favorecer a formação de matéria orgânica na forma de húmus. Pesquisas científicas confirmam cada vez mais a experiência de muitos agricultores, segundo a qual o manejo biodinâmico fortalece a resistência e a vitalidade dos solos, especialmente em anos difíceis. Há resultados correspondentes, entre outros lugares, na França (Zappellini et al., 2025), na Suíça (Krause et al., 2022), na Itália (Mazzei et al., 2024), na Alemanha (Milke et al., 2024), no Egito (Harm, 2025) e em outras regiões (Christel et al., 2021; Santoni et al., 2022).
Resistência natural das plantas
Agroecossistemas diversificados e solos férteis, ricos em húmus, constituem uma base sólida para culturas resilientes. Um passo adicional seria alcançado se as próprias plantas aprimorassem sua capacidade de adaptação às diferentes pressões das mudanças climáticas — como calor, seca, estresse salino ou doenças.
Na viticultura, pesquisadores franceses demonstraram que as videiras reagem de maneiras diferentes ao estresse climático e aos agentes patogênicos, dependendo do tipo de manejo. As videiras cultivadas segundo os princípios biodinâmicos apresentaram maior capacidade de adaptação de suas respostas fisiológicas do que as plantas manejadas de forma convencional (Soustre-Gacougnolle et al., 2018).
Entre os fatores que podem estar envolvidos nesses mecanismos destaca-se o preparado de sílica de chifre (501), atualmente objeto de intensa pesquisa. Estudos recentes indicam que ele pode influenciar a atividade fisiológica das folhas, especialmente a fotossíntese e diversos mecanismos de resposta ao estresse (Pettinelli et al., 2023). Além disso, as pesquisas mostram que o silício fortalece os tecidos vegetais e ativa vários mecanismos naturais de defesa (Collins et al., 2024). O papel específico desempenhado pelo preparado 501 continua sendo investigado.
Nenhum preparado biodinâmico isolado constitui, por si só, uma solução para os desafios das mudanças climáticas. O decisivo é, antes, a coerência do sistema agrícola como um todo. Somente a interação entre diferentes medidas fortalece, no longo prazo, a capacidade dos solos e das plantas de lidar com perturbações. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que mesmo as formas de manejo que promovem a resiliência encontram limites quando os eventos climáticos extremos ultrapassam determinada magnitude. Por isso, a resiliência e a solidariedade também devem ser pensadas no plano social.
As respostas às mudanças climáticas exigem estratégias integradas e de longo prazo (Altieri et al., 2015). Elas se baseiam em práticas agronômicas que promovem solos vivos, desenvolvem sistemas produtivos diversificados e fortalecem as culturas agrícolas, para que possam se adaptar melhor a condições ambientais imprevisíveis. Ao mesmo tempo, é necessária uma ação coletiva: a responsabilidade por essa transformação não pode ser atribuída exclusivamente aos agricultores.
A pesquisa, a educação, a política, a economia, os consumidores e toda a sociedade compartilham a responsabilidade pelo desenvolvimento de uma agroecologia resiliente, capaz de possibilitar uma alimentação saudável mesmo em condições de incerteza. Os desafios de nosso tempo exigem não apenas soluções técnicas, mas também mais cooperação, solidariedade e humanidade.
Referências bibliográficas
Altieri, M. A., Nicholls, C. I., Henao, A., & Lana, M. A. (2015). Agroecology and the design of climate change-resilient farming systems. Agronomy for Sustainable Development, 35, 869–890. https://doi.org/10.1007/s13593-015-0285-2
Christel, A., Maron, P.-A., & Ranjard, L. (2021). Impact of farming systems on soil ecological quality: A meta-analysis. Environmental Chemistry Letters, 19, 4603–4625. https://doi.org/10.1007/s10311-021-01302-y
Collins, C., Bloomfield, S., Hansen, L., & Gilliham, M. (2024). Can silica application enhance vine performance and quality? OENO One, 58(4). https://doi.org/10.20870/oeno-one.2024.58.4.8192
Harm, J. (2025). Egyptian Biodynamic Association — How can an economy of love, inspired by SEKEM, contribute to systemic change? In J. Kronenberg & E. T. Lammerts van Bueren (Eds.), On the Earth We Want to Live (World Sustainability Series). Springer. https://doi.org/10.1007/978-3-031-98758-8_22
Jacobi, J., Andres, C., Assaad, F., et al. (2025). Syntropic farming systems for reconciling productivity, ecosystem functions, and restoration. The Lancet Planetary Health, 9, e314–e325.
Krause, H. M., Stehle, B., Mayer, J., et al. (2022). Biological soil quality and soil organic carbon change in biodynamic, organic, and conventional farming systems after 42 years. Agronomy for Sustainable Development, 42, 117. https://doi.org/10.1007/s13593-022-00843-y
Mazzei, P., Sica, A., Migliaro, C., et al. (2024). MRI and HR-MAS NMR spectroscopy to correlate structural characteristics and the metabolome of Fiano and Pallagrello grapes with the action of field spray preparation 500 and the soil spatial microvariability. Chemical and Biological Technologies in Agriculture, 11, 131. https://doi.org/10.1186/s40538-024-00620-x
Milke, F., Rodas-Gaitan, H., Meissner, G., Masson, V., Oltmanns, M., Möller, M., Wohlfahrt, Y., Kulig, B., Acedo, A., Athmann, M., & Fritz, J. (2024). Enrichment of putative plant growth-promoting microorganisms in biodynamic compared with organic agriculture soils. ISME Communications, 4(1), ycae021. https://doi.org/10.1093/ismeco/ycae021
Pettinelli, S., Buzzi, L., Ceccantoni, B., et al. (2023). Does biodynamic preparation 501 influence the physiological activity of grape leaves of the Cesanese d’Affile cultivar? Chemical and Biological Technologies in Agriculture, 10, 114. https://doi.org/10.1186/s40538-023-00492-7
Piccolo, A., & Drosos, M. (2025). The essential role of humified organic matter in preserving soil health. Chemical and Biological Technologies in Agriculture, 12, 21. https://doi.org/10.1186/s40538-025-00730-0
Rigolot, C., & Quantin, M. (2022). Biodynamic farming as a resource for sustainability transformations: Potential and challenges. Agricultural Systems, 200, 103424. https://doi.org/10.1016/j.agsy.2022.103424
Santoni, M., Ferretti, L., Migliorini, P., Vazzana, C., & Pacini, G. C. (2022). A review of scientific research on biodynamic agriculture. Organic Agriculture, 12, 373–396. https://doi.org/10.1007/s13165-022-00394-2
Soustre-Gacougnolle, I., Lollier, M., Schmitt, C., et al. (2018). Responses to climatic and pathogen threats differ in biodynamic and conventional vines. Scientific Reports, 8, 16857. https://doi.org/10.1038/s41598-018-35305-7
Zappellini, C., Dequiedt, S., Tripied, J., Horrigue, W., Barré, P., Masson, V., Madouas, M., Mathé, A., Gervais, J.-P., Terrat, S., Maron, P.-A., & Ranjard, L. (2025). Ecological impact of conventional, organic, and biodynamic viticultural systems and associated practices on soil microbiota in different French regions. Agriculture, Ecosystems & Environment, 392, 109748. https://doi.org/10.1016/j.agee.2025.109748
Elaborado por Martin Quantin | 04/08/2026 | Pesquisa
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