A agricultura sustentável funciona! (Parte 3 de 3)
Ercilia Sahores – Foto: Goetheanum_Xue Li
México: dando vida a regiões desérticas
Este é o terceiro e último texto da nossa série sobre a Landwirtschaftliche Tagung 2025 (Congresso de Agricultura 2025), realizada no Goetheanum, em Dornach, na Suíça. Depois do Egito e da Índia, fechamos com a experiência de Ercilia Sahores no semiárido mexicano, onde uma descoberta simples — fermentar folhas de agave — ajudou a repensar a relação entre agricultura e escassez de água.
Diretora da Organic Consumers Association, Sahores mostra que, mesmo em paisagens marcadas pela desertificação, é possível encontrar soluções à mão — literalmente debaixo das plantas que sempre estiveram ali.
Ercilia Sahores, diretora da Organic Consumers Association, relata seu trabalho na região semidesértica do México, onde construiu um sistema de agricultura sustentável. Em 2005, foi pela primeira vez a San Miguel de Allende, uma cidade pitoresca, de ruas de pedra e cultura rica. Cinco anos depois, mudou-se para lá para organizar o primeiro mercado agroecológico de rua da região. Desde então, a região de Guanajuato — historicamente marcada pela agricultura e pela mineração — mudou profundamente: hoje predomina o cultivo de exportação de hortaliças como brócolis e celtuce (o «alface-espargo»), com uso intensivo de produtos químicos e agrotóxicos. Ao mesmo tempo, expandem-se loteamentos urbanos, campos de golfe e hotéis boutique.
Essa transformação trouxe consequências ecológicas graves: o nível do lençol freático cai de dois a três metros por ano, de modo que os poços, que antes tinham 40 metros de profundidade, hoje precisam chegar a 120 metros. A água superficial está contaminada por arsênio, flúor e metais pesados. Sahores remete ao passado colonial, quando a mineração de prata, o desmatamento e o trabalho forçado das comunidades indígenas exauriram a terra. Hoje, muitas agricultoras e agricultores lutam pela sobrevivência e precisam deixar seus animais subnutridos vagarem livremente em busca de alimento. Os jovens abandonam a região — trabalham no setor de hotelaria, emigram ilegalmente para os Estados Unidos ou se juntam a cartéis de drogas.
Apesar dos desafios, Ercilia Sahores se apaixonou pela paisagem, sobretudo pelo momento em que, depois de uma breve chuva, os cactos florescem. Mas ela alerta: o avanço da desertificação não é um problema exclusivo do Sul Global — no mundo todo, 3,2 bilhões de pessoas são afetadas por terras degradadas. Para enfrentar essa situação, ela administra uma fazenda sustentável com cultivo de hortaliças e frutas, criação de animais, uma escola de permacultura e agricultura biodinâmica. Uma loja e um restaurante oferecem produtos regionais e livres de transgênicos. Ainda assim, uma seca extrema em 2019 causou perdas significativas: a camada de húmus encolheu de oito para três centímetros.
Um ponto de virada veio com a descoberta das folhas fermentadas de agave como ração animal — uma «epifania no deserto». O México abriga 150 das 230 espécies de agave existentes no mundo, normalmente usadas para produzir tequila. Em vez de descartar as folhas, Sahores e seus colegas passaram a fermentá-las, transformando-as em uma ração nutritiva e de baixo consumo de água. As agaves não precisam de irrigação, armazenam umidade e crescem rapidamente. Combinadas com acácias — cujas raízes profundas alcançam a água e melhoram o solo —, elas dão origem a uma fonte sustentável de forragem. Enquanto a ração de trevo exige 5.000 litros de água por quilo e o milho, 1.200 litros, a ração de agave consome apenas 60 litros.
No início, a proposta encontrou resistência, pois as agaves não tratadas costumavam causar problemas digestivos nos animais. Somente com a fermentação a ração se tornou digerível. Hoje, o projeto contribui para revitalizar terras degradadas, estabilizar o regime hídrico e melhorar as condições de vida das pequenas agricultoras e agricultores. Para Sahores, trata-se não apenas de uma técnica sustentável, mas também de um caminho para curar a terra e as pessoas que nela vivem.
O que torna a transformação possível
Os projetos apresentados nesta série mostram que os métodos de cultivo sustentáveis não apenas regeneram a natureza, mas também podem criar perspectivas econômicas e fortalecer comunidades sociais. As quatro representantes dessas iniciativas marcantes concordam que a chave do sucesso está na comunidade e na cooperação com instituições políticas: na Índia, as agricultoras e agricultores se organizam em coletivos; no Egito, projetos-piloto servem de modelo para programas estatais. É fundamental que os modelos bem-sucedidos sejam documentados e divulgados, para superar o ceticismo e acelerar a transformação. Educação, conhecimento prático e um acompanhamento próximo das agricultoras e agricultores são essenciais para garantir a mudança a longo prazo.
«Estamos fazendo algo contra a desertificação: temos uma fazenda onde cultivamos hortaliças e frutas. Temos ovelhas, galinhas, perus. Há uma escola. Pessoas vêm de todo o México para aprender aqui. Temos permacultura, agricultura biodinâmica. E também empregamos pessoas das comunidades vizinhas.»
— Ercilia Sahores, México
Relato baseado na Landwirtschaftliche Tagung 2025, promovida pela Sektion für Landwirtschaft am Goetheanum, Dornach, Suíça.
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